Mariana Lewis fala sobre carreira e novo projeto nos teatros de Londres

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Mariana Lewis, atriz e escritora, está vivendo em Londres atualmente, onde atuou na peça “The Winter’s Tale”, baseada em uma obra de William Shakespeare. A obra fez parte de seu currículo acadêmico na escola de drama Guildhall School of Music & Drama, onde é a primeira brasileira a conquistar uma vaga na prestigiada instituição. 

Ainda em 2025, lançou, junto ao seu pai Quentin Lewis, o livro “O Orfeu de Londres”, que aborda a vida de Handel, um imigrante alemão que, em meio à xenofobia de Londres do século XVIII, enfrentou hostilidade, isolamento e falência antes de revolucionar a música inglesa.

No ano passado, a atriz também participou da série “Rainha Lear”, disponível na Prime Vídeo Internacional, em que atua ao lado de Claudia Alencar. Na trama, Mariana dá vida ao papel de Cordélia, a filha mais nova da Rainha Lear, interpretada por Cláudia. O projeto é uma adaptação da obra “King Lear”, de Shakespeare, com versão idealizada por Quentin Lewis, pai de Mariana e também editor e diretor do Canal Demais – produtora responsável pelo projeto e que a atriz lidera junto com os pais.

Para comemorar seus feitos, a atriz conta em entrevista exclusiva sobre esse momento da carreira e compartilha os desejos para os próximos passos. Confira agora: 

Como está sendo a experiência de atuar em outro país?

Atuar fora do Brasil tem sido uma experiência desafiadora e transformadora. A diferença de idioma e de cultura me forçou a explorar uma forma de atuação mais conectada com a emoção pura e com uma linguagem mais universal, algo que me lembra o que Artaud propunha sobre o teatro da crueldade, onde o gesto, o som e a intenção falam tanto quanto (ou até mais que) as palavras.

Por exemplo, quando interpretei Lady Macbeth na peça Macbeth do Morro, em português, senti que minha atuação vinha de um lugar muito brasileiro, intenso, corporal, com uma carga emocional expressa até nos gestos das mãos e na entonação da voz, algo que faz parte da nossa tradição cultural. Já interpretando Medeia em inglês, numa versão filmada e sombria da tragédia grega, precisei buscar outras formas de expressar o mesmo nível de profundidade, mas sem me apoiar tanto nos códigos que são naturais no Brasil.

Essa convivência entre o meu lado brasileiro e o novo contexto internacional tem enriquecido muito meu trabalho. Atuar em outro país está me ensinando a pensar a atuação não apenas como técnica, mas como ponte entre culturas.

Quais os aprendizados e desafios nessa nova rotina na escola em Londres?

Depois de três anos intensos na escola de teatro Guildhall, de onde me formei recentemente, posso dizer que vivi uma experiência transformadora. A rotina era 100% prática, das 9h às 18h, todos os dias do semestre, e isso me deu uma base muito sólida. Aprendi diversas técnicas de voz, movimento, construção de personagem, storytelling e reflexão artística.

Os desafios continuam existindo, e são, na verdade, universais para quem escolhe essa profissão. Sempre me pergunto: como dar vida a um personagem de forma autêntica, interessante e, ao mesmo tempo, alinhada à visão do diretor? E mais: como tornar isso original, impactante e vivo para o público? Esses questionamentos fazem parte da rotina criativa, e acho que é neles que mora a beleza do ofício. Cada novo projeto traz novas descobertas, e sigo em constante aprendizado.

Créditos: Lúcio Luna

Como é interpretar um texto de William Shakespeare?

Interpretar Shakespeare é, antes de tudo, um exercício profundo de estudo e dedicação. Cada linha precisa ser cuidadosamente analisada, não dá para assumir que o público vai entender automaticamente um texto escrito em 1600. É essencial usar pausas, ritmo, entonação, emoções e até mesmo o corpo para transmitir o sentido das palavras, sempre respeitando a métrica do verso original, o famoso pentâmetro iâmbico.

É uma experiência desafiadora, mas também extremamente gratificante. Shakespeare escreveu algumas das poesias mais belas e inspiradoras da história, carregadas de ensinamentos morais e filosóficos que continuam ressoando hoje com a mesma força de 400 anos atrás.

Para mim, trabalhar com Shakespeare é uma disciplina rigorosa, mas muito valiosa. Você não pode mudar uma palavra sequer, tudo deve ser decorado exatamente como foi escrito. Aprender a comunicar o sentido exato de cada fala, inclusive por meio da comunicação não verbal, tem fortalecido muito minha atuação em outras linguagens. Não é coincidência que tantos atores shakesperianos estejam presentes em grandes produções como filmes de super-heróis ou blockbusters de Hollywood. Shakespeare exige precisão, emoção e presença, qualidades essenciais para qualquer ator, em qualquer estilo ou mídia.

Agora sobre a série recente, Rainha Lear, como foi participar dessa obra?

Trabalhar em Rainha Lear foi uma experiência incrível. Contracenar com talentos como Claudia Alencar, Aline Azevedo, Ciça Mamede e todo o elenco foi um privilégio. O processo foi desafiador, especialmente por ter sido filmado 100% em chroma key. Muitas vezes, gravávamos sozinhos, andando em esteiras com ventiladores simulando o vento, imaginando todo o cenário virtual. Foi um exercício intenso de concentração e criatividade. No fim, ver tudo se materializar na tela foi extremamente gratificante. Fiquei muito feliz com o resultado e orgulhosa de fazer parte de um projeto tão ousado e inovador.

Foto: quentin lewis

Quais são os planos para o futuro? Algum projeto no Brasil?

Acabei de assinar um contrato de 18 meses para uma produção teatral em Londres. Os ensaios começam no próximo mês e, assim que puder, compartilharei mais detalhes. O que posso dizer por agora é que é uma oportunidade incrível de participar de uma superprodução ao vivo baseada em uma franquia famosa de Hollywood, estou muito animada!

Por conta desse compromisso, infelizmente não estarei filmando no Brasil por um tempo. No entanto, sigo conectada com a cena artística brasileira através de um projeto muito interessante: estou desenvolvendo conteúdo de animação que servirá para movimentar personagens 3D em uma produção que será realizada no Brasil. É um projeto experimental, que une atuação, tecnologia e narrativa visual de forma inovadora.

Tenho certeza de que será uma experiência única e estou muito empolgada com o que vem por aí, tanto aqui fora quanto no Brasil.

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